sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A Embriaguez do Sucesso


Jornalista que se preza deveria ler os principais títulos publicados e ver os filmes temáticos da área.


Muitos longas-metragens mostram o cotidiano das redações, esmiuçando a profissão, seu aspecto investigativo, cidadão, como também seu lado mais sórdido.

Filmes como Todos os Homens do Presidente (Alan Pakula, 1976), “considerado uma aula de jornalismo contemporâneo”, por exemplo, esmiúçam o caso Watergate na Era Nixon. Ou O Quarto Poder (Costa-Gravas, 1997) sobre a forma como um repórter de TV utiliza o meio de comunicação para se auto-promover em cima de um caso que toma proporções alarmantes, reflexo da própria cobertura televisiva.

A Embriaguez do Sucesso (Alexander Mackendrick, 1959) é outro filme temático que mostra a relação de simbiose entre um famoso colunista (Burt Lancaster) e um assessor de imprensa (Tony Curtiz), capaz de qualquer ato para publicar suas notinhas na grande mídia.

No filme, vemos como o assessor ganha a vida conquistando espaços e contratos, de acordo com a divulgação alcançada. Prática comum, até hoje, se levarmos em conta que a função desse profissional é ser a voz do cliente na grande mídia. Para tanto, é premente que seja bem relacionado.

A embriaguez do título se refere ao fato de que para se chegar ao topo do sucesso, o referido assessor de imprensa se vale de atitudes execráveis, chegando a caluniar uma pessoa, plantando notícias falsas nas colunas, para continuar mantendo seu ganha-pão em outros espaços. Ao mesmo tempo, o colunista aproveita sua posição para chantagear, direcionar e criar situações, de acordo com suas conveniências, utilizando as ferramentas de que dispõe.

Fazendo uma radiografia sobre as relações de poder entre esses profissionais, A Embriaguez do Sucesso demonstra a inexistência de limites morais e éticos na condução de um trabalho jornalístico viciado e nada preocupado com a essência de uma profissão que prediz a informação séria e comprometida com a raiz social.

Avaliação: 9,5

sábado, 1 de novembro de 2008

Crítica: O Nevoeiro

Filmes de terror são circunstanciais para discutir questões de cunho humano. O medo, que impulsiona esses longas, é essencial para dar o combustível exato de tais reflexões. E O Nevoeiro (The Mist, 2008), novo filme do diretor Frank Darabont se utiliza justamente desse pavor que temos do desconhecido para discutir questões importantes como ciência e fé.

Inspirado em conto de Stephen King, O Nevoeiro começa com um estranho fenômeno climático que derruba árvores com forte ventania, em pequena cidade norte-americana. Quando esse incidente se repete, trazendo consigo estranha neblina, um grupo de pessoas se vê presa num supermercado local.

O pavor se instala quando um homem é levado por "tentáculos". E é a partir dessa tragédia que as opiniões se dividem. Uma parte daquelas pessoas não crê se tratar de um monstro, ou alienígena. Outros defendem essa possibilidade, pois acreditam no que vêem. Em outra linha de defesa, uma mulher (Marcia Gay Harden), fanática religiosa, acredita estar vivenciando o fim dos tempos.

Várias situações adjacentes ocorrem, como a morte de alguns personagens, a invasão de insetos crescidos e uma tentativa malsucedida de fuga. O que vale mesmo neste "O Nevoeiro" é a batalha que se trava entre aqueles que, influenciados pelas palavras da neo-profeta, convertem-se ao "rebanho" e os que discordam do que classificam como alienação.

A expiação dos pecados e a negação da fé movem os transeuntes deste Nevoeiro, influenciados pelo medo do que não conhecem. Destacadamente, em situações de conflito, surgem líderes que impõem seus pontos de vista sobre os demais e, no longa-metragem de Darabont, esse confronto de idéias se concretiza de forma física, sem pender para um lado ou outro, havendo baixas de ambas as partes.

Não que O Nevoeiro fique "em cima do muro". Talvez Darabont defenda um concensso mais racional, admitindo que, da contraposição de dois argumentos opostos seja possível retirar um pensamento livre de amarras, que sejam religiosas ou políticas.

A conclusão depressiva demonstra um certo ar desesperançado do diretor na condução do "eu" na resolução da problemática mundana. Como se no mundo o individualismo e falta de crença em algo maior, que seja fé, ciência ou ambos, fossem maiores do que a esperança de que possa existir uma solução mais plausível.