terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Crítica: A Montanha dos Sete Abutres

O diretor Billy Wilder construiu, na década de 50, uma destruidora alegoria sobre a mídia, que é facilmente aplicável nos dias de hoje. O filme A Montanha dos Sete Abutres (Ace In The Hole, 1951) mostra como um repórter (Kirk Douglas) manipula toda uma situação trágica em busca de uma reportagem para tirá-lo de sua vida monótona e, com isso, alcançar a fama.

Toda a situação se desdobra em cima de um acidente. Um homem que fazia escavações fica preso numa mina e Charles Chuck Tatum (Douglas) que fazia matérias triviais no local vislumbra a chance de ouro de dar uma guinada na sua combalida carreira. Sua ação imediata é passar as informações do ocorrido para o pequeno jornal que trabalha. Um furo de reportagem que se espalha por todo o país.

Tatum consegue fazer contato com esse homem. Descobre até que seria possível minimizar seu sofrimento. Mas quando uma equipe de resgate orienta sobre qual a melhor maneira de salvá-lo, o jornalista manipula toda a conjuntura a fim de prorrogar aquele momento.

Jornalistas e curiosos de toda a parte logo se alojam nas proximidades da montanha para extrair o máximo de informações, as quais Tatum possui controle e monopólio. Wilder, sabiamente, monta um picadeiro de circo, com a exploração da comoção popular, a venda de bugigangas temáticas e até a criação de uma trilha sonora. Um espetáculo antropofágico de cobertura sensacionalista que tem como meta a obtenção de dividendos e a orientação das massas.

A Montanha dos Sete Abutres mostra a facilidade de desviar a atenção do público segundo as conveniências dos meios de comunicação. Hoje, esse efeito midiático é bem mais poderoso com os recursos instantâneos de propagação das notícias. Redes de televisão conseguem transmitir em tempo real casos como o seqüestro de Eloá, acompanhados ostensivamente por um público sedento por novos espetáculos. Divulgando de forma minuciosa os pormenores da ação e a vida completa daqueles personagens da vez.

Essa mesma platéia não hesita em abandonar aquele material, quando outro mais sensacional toma a atenção e mais rápido ainda é o esquecimento. Atualmente, pouco se fala no caso Isabela Nardoni. Na época, a dissecação detalhista do caso chegava a provocar ojeriza, banalizando toda uma problemática chocante que virou hit do Youtube e provocou a formação de várias comunidades de discussão no Orkut.

Esse jornalismo fast-food dura enquanto há a devida atenção. Quando a poeira baixa, os holofotes se voltam para a exploração de outros assuntos, até que surjam novas Isabelas ou Eloás no caminho.

A discussão proposta neste A Montanha dos Sete Abutres é pertinente e atual. Óbvio que a Mídia só divulga de acordo com a fome do seu público. Mas será que essa platéia não foi treinada, ao longo do tempo, de buscar o novo, o “sensacional”. Ou será que essa curiosidade mórbida faz parte da própria condição humana?

Independente disso, o filme de Billy Wilder, pelo menos, é uma obra ficcional que ri de toda essa situação. Na vida real, contudo, a desgraça alheia não tem a mínima graça.

Avaliação: ★1/2

2 comentários:

Gustavo Zago disse...

nunca vi...mas gostei do que disse!vou procurar assistir!

Sem querer ser repetitivo,tenho novo selo pra você!!Um bem legal...vale ate caricatura!Veja lá!!

Humberto disse...

Olá, aceita ser meu parceiro de blog? Aguardo resposta e ofereço-lhe no www.humbaz.blogspot.com um selo agradável.